Kiratsu

Kiratsu - Episódio 3 Resolvendo Problemas (parte 2)
"Meus pés doem de tanto batê-los no chão"

Por Frida Lizz’Astarth

31 de Decetério, 3360º A.D. (27 de Decetério, 420 D.B.). Dia do Acaso.

Finalmente uma pausa para atualizar este diário. Há exatos três dias partimos em viagem rumo ao Deserto Movediço, mais precisamente à cidade-estado de Clepsidra. A pessoa a quem deveríamos escoltar finalmente se apresentou naquele dia. Uma angélica de penas longas vermelho-fogo na cabeça, asas brancas do lado de dentro e negras do lado de fora e modos um tanto… extrovertidos. Parecia conhecer o braço-direito da líder da guilda, o “meio-demôntrio” Lizzandro, bem o suficiente para demonstrar tão publicamente o quanto não o aprecia. Seu nome é pronunciado como “Ichta”, mas certamente a escrita deve ser diferente. De qualquer forma, partimos sem utilizar os cavalos que nos foram disponibilizados, pois seria certo que nossa dívida aumentaria caso algo acontecesse aos animais. Além disso, nossa anfitriã não parecia ter tanta pressa em chegar ao seu destino. Por isso, a senhora “Ichta” não fez questão de que nosso pequeno grupo parasse hoje pela manhã para ajudar uma senhora idosa a recuperar sua… panela. Achei louvável a boa vontade dos meus novos conhecidos, mas não achei necessário tomar parte nisso. Então, enquanto eles ajudavam a velha senhora, aproveitei para continuar ensinando a pequena Laverne a ler e escrever. No fim das contas, pelo que soube depois, a pessoa a quem a senhora emprestou seus utensílios havia morrido de uma forma incomum. Foi bastante prudente da parte do grupo não se aprofundar neste mistério. Afinal, estávamos em uma missão e a julgar pela última experiência que tivemos envolvendo a morte de alguém, isso nos levaria a ainda mais problemas.

33 de Decetério, 3360º A.D. (29 de Decetério, 420 D.B.). Dia da Lua.

Meus pés dóem de tanto batê-los no chão. Encontramos uma caravana de jokers no fim do dia, quando estávamos prestes a parar para acampar. Essa seria uma boa oportunidade para conhecer nossos primos distantes e talvez reformular uma série de preconceitos que carregamos através de milênios de lendas e histórias, algo que até mesmo Reshiran havia concordado. Seria mas não foi, porque acabei sendo atrapalhada por um elfo inconveniente…

Convém ressaltar a atitude da senhora “Ichta”. Não me parecia que ela precisava realmente de proteção. Ela parecia saber muito bem o que estava fazendo, e liderava nosso grupo como se fosse ela mesma quem nos tivesse chamado para a missão. Portanto, não me surpreendeu que fosse ela a primeira a falar com os jokers da caravana e em seu próprio idioma – que guardava uma vaga semelhança com o nosso tsukumês, confirmando nossas origens em comum. Fomos bem recebidos por eles, e já no início da noite uma espécie de festa ou celebração começava a se formar. Cautelosamente, permaneci apenas observando o ambiente e as pessoas, prudentemente mantendo Laverne perto de mim enquanto observava os ritos e significados daquele evento. Para minha agradável surpresa, os jokers pareciam seguir os mesmos ideais de igualdade que nós demôntrios tanto cultivamos ao longo dos milênios. Um outro conceito religioso fascinante que acabei por descobrir é que eles acreditam que as estrelas são seus ancestrais observando-os dos céus. Observei ainda pela primeira vez suas “casarroças”, casas montadas sobre rodas e puxadas por animais de tração, o que também confirma a natureza nômade dessa família.

Estava observando cuidadosamente todos esses detalhes em meio à festa que ocorria quando o elfo Furion veio até mim para tentar me convencer a se juntar à dança. Como eu havia recusado, ele voltou-se para Laverne, mas eu também rechacei mais essa tentativa. E então uma criança veio ao encontro da menina, aparentemente para chamá-la para as brincadeiras do evento. Esse momento de distração foi o suficiente para sentir uma mão me puxar pela cintura e me levar para a roda ao redor da fogueira. Imediatamente a perdi de vista, apenas para me deparar novamente com o rosto daquele elfo intrometido sorrindo e me desafiando a dançar com ele. Olhando para todos os lados enquanto procurava Laverne, vi que todos estavam aproveitando a festa, cada um a seu modo – até mesmo a senhora “Ichta” estava bebendo vinho e conversando animadamente com os jokers, enquanto Reshiran, normalmente tão soturno e quieto, exibia orgulhosamente suas enormes asas (provocando interjeições de espanto e admiração em algumas fêmeas). Somente quando a avistei brincando com as outras crianças e se divertindo foi que finalmente atendi aos pedidos do elfo. Não é segredo que não sei dançar absolutamente nada (em parte porque ter cascos em vez de pés torna a tarefa ainda mais difícil…) e tentei me aproveitar desse fato para puni-lo com algumas pisadas “semi-involuntárias” em seus pés. Para meu embaraço, ele não desistiu e passou até a se divertir com esse novo jogo. De alguma forma acabei por me empolgar demais com a brincadeira (que eu mesma confesso ter sido um tanto ridícula…) e é exatamente por isso que meus pés estão doendo até agora.

35 de Decetério, 3360º A.D. (31 de Decetério, 420 D.B.). Dia do Tempo

Certamente hoje foi o dia mais movimentado de todos dessa demanda até agora. O ar quente vindo do deserto nos recebeu assim que avistamos as primeiras dunas ontem, anunciando o clima hostil que teríamos de enfrentar para chegar à cidade de Clepsidra. A senhora “Ichta”, junto com Reshiran, sobrevoaram as areias por algum tempo até encontrarem uma tribo de nativos, os quais após rápida negociação concordaram em servir-nos como guias. No entanto, a marcha me pareceu mais difícil devido à temperatura escaldante. Sofrendo com o terrível calor e tendo o que pareciam ser alucinações provocadas pela insolação, tentei arrefecer minha cabeça utilizando um pequeno truque para criar água sobre mim mesma. A ideia se provou totalmente contraproducente, pois além de não surtir o efeito desejado, a própria água passou a se aquecer, piorando ainda mais minha sensação de calor. Felizmente, Laverne veio em minha ajuda e aparentemente conjurou uma magia para me proteger das temperaturas altas do deserto.

Viajamos um pouco mais durante a noite e na tarde do dia seguinte já avistamos a grande cidade-estado. Suas construções mais simples são feitas de argila, amontoadas e com espaços mínimos entre si, formando vielas muito estreitas. À medida que adentrávamos mais e mais pela cidade, prédios e construções mais sofisticadas começavam a aparecer. Casas revestidas de cerâmica aqui e ali ganhavam destaque. Foi num desses prédios que a senhora “Ichta” entrou para tratar dos seus assuntos em Clepsidra. Sairíamos em pouco tempo para a viagem de volta, mas devido a contratempos que serão descritos adiante, acabamos por ficar e passar a noite na cidade. A princípio, ela nos pediu para sairmos e explorarmos as ruas enquanto resolvia seus negócios, e que voltássemos em cerca de duas horas àquele mesmo prédio. E então, nos separamos em pequenos grupos.

Saí com Laverne e Reshiran para abastecermos nossos cantis e rações de viagem. Felizmente, meu dedicado ex-aluno havia trazido as moedas necessárias para trocar pelos mantimentos e, como esperado, a menina trocou suas moedas por tantos doces quanto pudesse pegar. É impressionante como aceitam esses pedaços de metal em qualquer lugar e trocam-nos por qualquer coisa. Foge à minha compreensão o motivo de fundamentar um sistema econômico de troca de valores em algo que não tem verdadeiro valor, mas estando aqui tudo o que posso fazer é tentar entender e aceitar esse sistema. Após as compras, resolvemos tomar o caminho de volta para o prédio quando uma senhora de idade passou por nós queixando-se de que suas galinhas vinham sendo roubadas por algum tipo de criatura estranha. Dizia ser uma espécie de “lobo bípede”, que só roubava uma galinha de cada vez. Pelas conjeturas apresentadas por Reshiran, parecia que se tratava ou de um lobo atroz realmente bípede ou de um licantropo pequeno. Intrigante, mas não a ponto de me fazer esquecer que tínhamos de nos encontrar como a senhora “Ichta” na frente do prédio. No entanto, por insistência da pequena Laverne e até mesmo pelo interesse de Reshiran, acabei concordando com ambos em ajudar a senhora idosa.

Surpreendentemente, percebi que Laverne sabia seguir rastros bastante bem para uma criança. Uma boa caminhada seguindo as pistas nos levou a um pequeno grupo de crianças de rua, as quais usavam botas com solas de patas de lobo para enganar a senhora idosa. Com essa prova, ficou claro que eram eles os culpados pelos roubos. No entanto, a pequena quadrilha mirim o fazia por não ter o que comer, e achamos por bem convencer a senhora a cuidar das crianças e lhes ensinar algum ofício (como cuidar de galinhas, por exemplo) em troca de ajudá-la com as tarefas dela. Com esse pequeno caso resolvido, a mesma senhora nos ofereceu cinquenta “olhos de ouro” como recompensa, dos quais dei dez a Laverne – ao menos ela poderá trocar por mais doces.

Quando finalmente retomamos o caminho até o prédio, vimos bastante movimentação nas ruas, as pessoas entrando em suas casas e fechando portas e janelas. Certamente algo estava para acontecer, mas mesmo assim fomos pegos de surpresa: uma tempestade de areia irrompeu pelas ruas da cidade antes que pudéssemos alcançar a segurança do prédio. Com o manto que me foi dado pelos nômades do deserto no dia anterior, protegi a mim e a Laverne da areia que voava com os ventos intensos. Reshiran aparentemente tentou fazer o mesmo abrindo suas asas mas acabou sendo arrastado pela tempestade por vários metros. Quando finalmente percebi que a tempestade havia passado, já estavam lá Furion e Loisandra a ajudar meu desafortunado e escoriado ex-aluno. A senhora “Ichta” então decidiu que deveríamos ficar e descansar para Reshiran tratar de suas feridas antes de partir. Alugamos quartos numa estalagem próxima, e dividi um deles com Laverne e Reshiran.

Laverne inegavelmente tem grande potencial, e não falo de seus poderes arcanos. A menina havia percebido minhas dificuldades com o sistema de valores local e achou por bem tentar me ensinar como funcionava. Obviamente, sua curiosidade falou mais alto e não demorou a vir a costumeira enxurrada de perguntas sobre o nosso sistema de valores. E mais uma vez, por mais que me esforçasse, aparentemente não consegui fazer com que ela entendesse sequer o básico da economia tsukumesa. As diferenças culturais realmente têm bastante peso no aprendizado, mas ainda assim farei com que ela aprenda ao menos a ler, escrever e contar.

Descemos para o jantar. Enquanto alguns dos outros foram tirar a poeira do dia (que nunca foi tão literal quanto hoje) com um banho, Laverne e eu terminávamos nossa refeição ao som e à voz de músicas tocadas por uma mulher encapuzada. Mais uma vez a menina mostrou seu lado arredio quando tentei levá-la para dar-lhe banho. Tentei arrastá-la para as banheiras, mas sua… veemente recusa… me fez desistir e então fui sozinha me banhar. Assim que terminei o asseio, eis que a vejo me pedindo para tomar banho, pois segundo ela, o elfo disse-lhe que “poderia fazer bolhinhas na água”. Pela chave de Demôntria, isso só pode ser um teste dela própria… Obviamente, tive de aproveitar a oportunidade. Enquanto cuidava da menina, a mesma mulher (na verdade, uma elfa) que cantava no jantar e Karen, uma das moças do nosso grupo, também estavam nas tinas. Conversamos sobre histórias, canções e canto, o que instigou Laverne a perguntar se eu conhecia alguma música. Relutantemente, cantei alguns versos de uma antiga canção de ninar que me dava sérios calafrios quando criança. Mas por algum motivo, sinto que não era por causa da letra que as senhoritas ali presentes pareciam desconfortáveis…

View
Kiratsu - Episódio 2 Resolvendo Problemas (parte 1)
"Estou ferrado"

Por Rugnar Slagsun

Sozinho em seu quarto da Guilda dos Sóbrios, na véspera da partida para sua primeira missão, Rugnar resolve aproveitar a escrivaninha e começa a escrever em folhas de papel solto, esperando assim aliviar um pouco suas preocupações. Ele começa assim:

Estou ferrado.

Completamente ferrado, e tudo apenas por estar no lugar errado, na hora errada.
De novo.

Deveria ser um trabalho simples. Alguma coisa comum como recuperação de algum item, escolta, rastreio, algo assim. Eu já estava na cidade a um mês desde o… evento… com piratas ao norte, e não havia surgido nada de mais. Eu tinha começado a descobrir os contatos certos, e me indicaram esse tal de Sapiel na taverna Rosa D’Água. Pelo nome eu esperava um angélico metido a sábio, algum corujão talvez. Enfim…
Sai de meu alojamento anterior para lá na noite anterior, e até transferi o Adalberto Alonso Brathil para o estábulo deles, suavizando o aumento na diária que sofri. Parece pouca diferença diante do que eu devo agora, mas naquele dia era o tipo de coisa que ainda me preocupava.

A previsão mensal que eu fiz logo antes parecia promissora, mas preciso sempre lembrar que eu não tenho a claridade de visão de dona Alenkina, ou mesmo do Lukan. Vou tentar rascunhar aqui, preciso mesmo começar a anotar essas leituras.

Foi uma leitura simples, passado-presente-futuro. E o que saiu…

tarou.jpg

Três cartas de ouros! Claro que era tudo voltado ao dinheiro e negócios, e me fez crer que o que quer que esse tal Sapiel fosse me propor, seria vantajoso.
Passado – Ás de Ouros – um novo começo, uma oportunidade financeira, um interesse revitalizado na área financeira de minha vida. Entendi que isso estava ligado ao meu novo interesse de começar algum tipo de negócio legítimo.
Presente – Valete de Ouros – sonhos e o desejo de torná-los materiais. Crescimento e expansão. De novo, uma boa referência a esses meus novos planos. Também pode ser uma pessoa literal: um jovem (qualquer gênero) com espírito empreendedor. Seria esse o próprio Sapiel? Eu pretendia checar isso.
Futuro – Cavaleiro de Ouros – Esse cavaleiro é metódico e rigoroso. Eu teria que seguir uma rotina, ser confiável e paciente, para que o negócio desse certo. Era a pior parte, mas eu pensava pelo menos em tentar.

Só agora vejo que tudo isso estava para ser imposto a mim. Mas no dia, essa leitura me fez sentir motivado a ir ver o que ele teria a propor, mais até do que o adiantamento de 10 olhos.
De qualquer forma, ela continua a indicar um futuro promissor, em termos materiais. Talvez seja a única coisa que me impede de deixar isso tudo e fugir agora mesmo.

(continua em outra folha)

Vamos ver o que eu consigo lembrar daquele dia. Quando Sapiel chegou, descobri que ele era humano, um ruivo alto, devo admitir que bem simpático. Passava pelas mesas da taverna como se conhecesse todos lá. E provavelmente conhecia mesmo. Eu não era o único convidado daquela noite.

Eventualmente, eu ouviria os nomes dos demais presentes ao menos uma vez, e até aprenderia alguns. Mas vou me referir a eles da forma como eu os identifico pessoalmente:
-O casamenteiro e o ara obviamente já se conheciam, e dividiam uma mesa.
-Em uma mesa perto deles, estavam a professora e a pirralha. Ela os comprimentou ao chegar. Os quatro pareciam também já conhecer o Sapiel.
-O nerd quase se levantou quando ela chegou, como se quisesse ir falar com ela.
-Havia um meio-orc cego se alternando entre tocar músicas e paquerar. Esse eu reconheci, creio que do casamento do pai de Lukan. Ele devia ter uns 10, 12 anos na época, e era da minha altura. Foi criado por jokers desde que era uma criancinha.
-O elfo e a bonitona estavam na deles.
-Finalmente, cada um em uma mesa, estavam o doido, e a pistoleira. Não dei muita atenção a esses dois naquela noite.

E eram esses os presentes na estalagem, na hora em que o Sapiel pareceu passar mal, e então simplesmente explodiu como se fosse uma bexiga cheia de sangue. Como impulso, me escondi embaixo da mesa, evitando me sujar muito, mas deixando de ver a reação dos demais presentes. Vendo que tudo tinha ido à merda, e só iria piorar, aproveitei minha posição para tentar escapar sorrateiramente. Mas a única saída que encontrei foi a própria porta dianteira, que se abriu quando eu me aproximava, e um grande grupo de guardas entrou. Sem escolha, me rendi, e fui levado à prisão junto com os demais. Ficaram livres o pessoal da taverna, o bardo (que prestou algum tipo de depoimento aos guardas e foi liberado), e a pirralha.

Na cela já estava presente o outro angélico, o que eu chamo de nervosinho. Um daqueles baixinhos (uns quatro dedos mais alto que eu) nervosinhos. Preso por roubo ou coisa assim.

E ali ficamos por algumas horas. Eu gostaria de ter podido usar minha gaita, mas a confiscaram, assim como tudo o mais que eu tinha. Mesmo os itens que eu mantinha escondidos foram encontrados, por um vacilo meu mesmo. O guarda que me vasculhou realmente não gostou de encontrar quatro adagas em minha roupa. Ainda bem que eu tinha deixado outras ferramentas ainda mais suspeitas no quarto.
Mas como eu dizia, ficamos na cela por algumas horas. O nervosinho não ficava quieto, parecendo uma mariposa batendo no vidro de uma lanterna à noite, indo e voltando na cela apertada. O elfo confortava a bonitona na outra cela. A professora reconheceu o nerd, que já foi aluno dela. Sinto cheiro de “aluno de estimação” por parte deles. Péssimas lembranças aí. Ao menos o nerd tem algum senso de humor, embora tenha demorado a entender minha piada sobre transformar as asas do nervosinho em tatuagem.

O doido, parecendo como sempre ouvir algo que mais ninguém podia escutar, anunciou a chegada dos representantes da Guilda antes de acontecer de fato. Entendo que ele seja um premônico. Enfim, como anunciado, vieram dois humanos da Guilda dos Sóbrios, a líder chamada Raya, e um auxiliar com um jeitão meio de demôntrio – e nome terminando em “-andro”, não lembro qual exatamente.
Essa Raya usaria sua influência para nos libertar… e ficaríamos devendo a ela o valor da fiança, dos ‘danos materiais’ da estalagem, e etc… o que significava, trabalhar para a guilda como quase-escravos até pagar a ridícula dívida de mil e quinhentos! Claro, a outra opção era ser o único suspeito ainda preso pelo crime, o que seria arriscar uma sentença de morte.
E assim fiquei devendo a vida e a alma para essa tal guilda, assim como quase uma dúzia de pessoas (inclusive o angélico nervosinho, que como já disse estava preso por algum outro crime; vai entender essa).

No período de quase um mês que eu estive em Artagum, eu nunca procurei saber essa “Guilda dos Sóbrios”, em parte por causa do nome. De volta à Rosa D’água, o estalajadeiro contou a história de sua origem, que se passou ali mesmo na Rosa, décadas antes; os fundadores estavam bêbados demais na noite em que decidiram criar essa guilda, e deixaram para decidir os detalhes quando estivessem sóbrios.

Passei o resto da noite, e a manhã do dia seguinte, tentando manter essa história fora de minha mente. Conversei um pouco com o bardo, confirmando que ele era quem eu pensava. Depois convenci o casamenteiro a jogar uma partida de carteado comigo; ele é bem humorado e levou a derrota na esportiva, mas precisa aprender a ser menos ingênuo. Fiquei até com uma pontinha de pena dele, e prometi uma leitura de cartas para ele. Ainda não fiz isso, provavelmente terei tempo durante a nossa missão, mas já estou me adiantando aqui.
O elfo veio com uma história de que a morte de Sapiel foi devido a um chá que ele tomou; não sei se tem algum fundamento.

Depois do almoço de hoje, fomos para o dito encontro na guilda. Um lugar suntuoso, puxando pro exagero na ostentação. O humano-com-traços-de-demôntrio-Andro nos levou até a sala da Raya, e discutimos os termos do contrato (e, por algum milagre, até conseguimos reescrever alguns itens em nosso favor). Eu acho que já coloquei aqui que a dívida é de 1.500 ouros por pessoa, a ser paga através das missões das guildas – 90% da recompensa indo para a guilda e sendo abatido de cada dívida, e os 10% restantes a serem divididos entre os dez assinantes do contrato. Podemos solicitar um sinal de 30% desses 10% (leia-se: uns trocados). Em caso de morte durante a missão, a dívida do falecido é distribuída entre os sobreviventes do grupo. Tesouros e outros itens adquiridos como parte direta da missão também vão em maior parte para a guilda. E etc etc bla bla bla, chega disso.

Julgando pela primeira missão – 1.000 ouros por uma missão de escolta até o deserto que duraria, no mínimo, duas semanas -, cada um de nós não recebe o bastante sequer para nos sustentar nesse período. Ou seja, quase-escravidão. Mas, como eu disse na prisão e repeti nessa ocasião, a outra opção era voltar para a prisão e depois, certamente, ser executado.

Enquanto nós discutíamos os termos, notei que a pirralha só estava interessada nos doces bem à vista em um pote de vidro. Simpatizei com ela, ainda mais vendo a rigididez e “disciplina” com que a professora, sua tutora ou mãe postiça ou o que for, reagia a qualquer coisa que vinha daquela menina desde que eu as conheci. No momento em que a demôntria soltou sua mão, a menina avançou nos doces sem dó. Só pude conter meu riso. Parabéns, Lalá (?), você passou de “a pirralha” para “a menina”.

E foi isso. Contrato assinado, primeira missão atribuída, e nos mudamos para a guilda. Trouxe o Asdrúbal Astolfo Brathil para o estábulo deles, e tive direito a um quarto individual, de onde estou escrevendo agora. Agora que repensei nos acontecimentos desses dois dias, vou fazer uma leitura de cartas mais complexa, para tentar encontrar algum sentido oculto nisso tudo.
Depois de jantar.


Rugnar dobra com cuidado as duas folhas de papel escritas, e mais algumas em branco que encontra, e as guarda com cuidado em sua roupa. Ele desce para jantar.
Mais tarde naquela noite, ele volta para o quarto. Tira uma das folhas em branco, prepara o baralho de cartas, e começa a distribuir, nove cartas em três linhas por três colunas. Ele anota o resultado.

-

Tiragem de nove cartas, 24 de decetério de 420.
Passado: dez de ouros, quatro de ouros, cavaleiro de copas
Presente: cinco de paus, oito de espadas, cinco de ouros
Futuro: dois de copas, rei de espadas, cinco de espadas

tarou_2.jpg

Fazer análise depois. Leitura do presente parece coerente, mas o futuro precisa de análise cuidadosa, está ambíguo; passado sugere algo a mais também. Agora, dormir.


_Dessa vez Rugnar guarda os papéis na mesma caixa que as cartas. Depois, se despe, faz um rápido asseio, e vai dormir.

Em algum ponto do dia seguinte, ele começa a rascunhar sua interpretação. Ele está incerto, rasurando e reescrevendo as palavras._
-

PASSADO

  • Dez de ouros – a família próspera; aposentadoria, família, herança, riqueza familiar
  • Quatro de ouros – o homem segurando seu dinheiro com mãos, pés e cabeça; situação de riqueza mas que o deixa preso em vários sentidos
  • Cavaleiro de copas – o cavaleiro de armadura brilhante. Pessoa, evento, ou consulente?
    • Evento: ???????
    • Consulente: usa as emoções para tomar decisões

Obs: lembrar qual significado de evento o cavaleiro de copas representa.

Passado se refere à minha origem. Família rica e próspera, mas o tipo de riqueza que restringe minha liberdade; e eu sendo alguém que segue as emoções, fui o elemento dissonante (naipe diferente).
Tudo confere, tirando o tipo de evento o cavaleiro poderia representar. Esperava algo mais recente, mas esse passado tem ligação com eu estar aqui.

PRESENTE

  • Cinco de paus – a briga; desacordo, conflito, discussão. Todos contra todos.
  • Oito de espadas – a prisioneira vendada; isolação, aprisionamento. Há um caminho livre de espadas, mas a venda impede que isso seja visto.
  • Cinco de ouros – os mendigos; preocupação e perda financeira, pobreza.

Três naipes diferentes, dois cincos (número da adversidade), a situação é instável e difícil. Confere.
O oito diz que há uma saída que não é óbvia (pode ser a forma incomum de sair da prisão que já surgiu, ou pode ser uma forma de escapar desse maldito contrato); o cinco de paus diz que vai ser difícil fazer os demais ouvir qualquer sugestão diferente. O de ouros só reforça a falta de recursos.

FUTURO

  • Dois de copas – o casamento; união amorosa, parceria, amizade, união de interesses
  • Rei de espadas – o líder severo e justo. Pessoa, evento, consulente?
    • Pessoa: homem adulto, algum figurão importante, pessoa com autoridade, capaz de comandar
    • Evento: conseguir conselho com alguém de autoridade? incerto
    • Consulente: deixar emoções de lado, usar lógica e intelecto no caminho à frente. (contraste com cavaleiro de ouros é relevante!)
      Cinco de espadas: alguém sai vitorioso do conflito, outros derrotados. Ambíguo sobre o consulente ser o vitorioso ou o derrotado. Perda, ou vitória custosa; traição.

(Obviamente, vou me casar com um rei e ficar com tudo o que é dele!)

Outro cinco. O conflito da linha do presente irá estourar. O grupo vai brigar entre si? Alguém vai sair perdendo feio nisso.
Acho que tenho que arranjar parcerias no grupo, usando a lógica ao invés da emoção, para estar preparado pro conflito. Mas, com quem?

  • Zeruel, o nervosinho -
  • Frida, a professora -
  • Reshiran, o nerd -
  • Eitran, o casamenteiro -
  • Karen, a pistoleira -
  • Loisandra, a bonitona -
  • Furion, o elfo -
  • Ariel, o ara -
  • Adel, o doido -
View
Kiratsu - Episódio 1 - A oferta de Raya
"Ele estava normal... até morrer"

Por Frida Lizz’astarth
28 de Decetério, 3360º A.D. (24 de Decetério, 420 D.B.). Dia do Sol.

Espero descrever da forma mais clara possível aqui todo o contexto desses últimos dias. Ontem finalmente retornei para Artagum. Estava prestes a reportar a missão ao senhor Sapiel, mas não pude fazê-lo devido à sua… morte súbita. A forma como ocorreu me choca até agora, mas a série de acontecimentos que vieram antes disso fazem minha mente entrar em um estado preocupante de entorpecimento. Assim, também espero que descrevê-los nessas páginas me ajude a não transformar isto num trauma. Bem, aos fatos…

Cerca de cinco dias atrás. Estava em meu último dia de “visita” à pequena vila indicada pelo senhor Sapiel, onde eu deveria investigar rumores sobre uma casa assombrada por mortos-vivos. Como a população e os guardas locais não me permitiriam investigá-la, fui até lá seguindo as orientações do próprio Sapiel, sob o pretexto de obter documentos da prefeitura local enquanto entraria secretamente na casa antes de retornar à cidade. Foi exatamente o que fiz. Encontrei diversos instrumentos de tortura com muitos sinais de que não eram mais usados há muito tempo. No entanto, percebi que de dentro de uma espécie de caixão de metal sangue fresco fluía e se espalhava pelo chão. Qual não foi minha surpresa ao tirar uma criança ainda viva de lá! Mais ainda, que o referido caixão era inteiramente revestido de espinhos de metal por dentro! Sorte ou não, nenhum desses espinhos chegou a atingir um ponto vital da menina, mas a quantidade de sangue derramado era absurdamente grande para sequer caber num corpo tão pequeno. Eu não tenho nenhuma explicação plausível para isso, parecia que a criança produzia todo aquele sangue com a mesma rapidez que o perdia devido aos ferimentos. Usei a única poção de cura que tinha para estancar seu sangramento e deixei a vila carregando-a ainda inconsciente nas costas. Andei a noite inteira até ter certeza de que não havia ninguém me seguindo.

Devido à exaustão, acabei dormindo mais do que o planejado. Acordei com o choro estridente da garota, já recuperada das feridas mas ainda com as suas marcas. O caminho de volta foi feito sem incidentes, mas nem por isso deixou de parecer mais longo que a ida – especialmente com a menina a atirar-me perguntas o tempo todo. Ao menos descobri um pouco sobre ela mesma e seu passado. Coisas perturbadoras, para falar a verdade. Ela chama-se Laverne Laplace e foi trancafiada naquele terrível instrumento de tortura aparentemente por ter se descontrolado com seus poderes mágicos e ter feito algumas vítimas em seu próprio vilarejo-natal. É praticamente uma certeza ser ela a origem dos boatos sobre a casa assombrada e o motivo pelo qual os aldeões não deixariam que ninguém chegasse perto daquele lugar. Agora tenho a responsabilidade de procurar tanto por seus pais quanto por maiores explicações do ocorrido que a levou a ser trancada para morrer naquele caixão. Não foi mais do que uma surpresa mórbida quando, durante uma das conversas que tive com a criança, ela ter me mostrado a natureza de sua magia: ela se mostrou capaz de manipular sangue.

Como já havia dito, chegamos finalmente a Artagum ontem e nos dirigimos imediatamente para a taverna e estalagem onde encontraria o senhor Sapiel. Estava mais movimentada do que quando saí, e osenhor Sapiel me pareceu bastante saudável quando se aproximou da mesa onde estávamos. Não vi nem senti nada de anormal antes dele me dirigir a palavra e me perguntar se estava cansada da viagem. Depois disso… ele simplesmente explodiu em sangue e carne. Demôntria me perdoe, mas por um momento passou pela minha cabeça que Laverne poderia ter feito aquilo… mas a menina estava ainda mais chocada do que eu, repetindo que não foi ela por várias vezes. Obviamente um pandemônio se instaurou no local, o que fez com que os guardas chegassem rapidamente ao local e testemunhassem a carnificina ali presente. Todos os que estavam na taverna foram presos, exceto Laverne e o taverneiro (o que de certa forma me deu um alívio temporário, mas também pressa de sair daquela cadeia). Horas depois, uma mulher aparecera nas masmorras para de certa forma negociar nossa liberdade, algo que não tive como recusar porque precisava manter Laverne por perto – sendo ou não ela a responsável pela morte de Sapiel, eu deveria afastá-la de qualquer incidente que envolvesse seu tipo de magia. O mais estranho, no entanto, foi não ter notado nenhuma conjuração ou indício de magia no ambiente – um fato confirmado por pelo menos mais uma pessoa naquele recinto, aparentemente conhecida dos guardas que nos levaram sob custódia.

Todos esses acontecimentos estranhos acabaram por nos levar a uma espécie de dívida com a mulher que nos soltou – ela se apresentou como Raya, a líder da Guilda dos Sóbrios. No dia seguinte, depois de uma noite exaustiva lavando todas as minhas vestes dos banhos de sangue tanto do incidente com Sapiel quanto da casa assombrada na vila, constatei que a menina estava aparentemente bem – sobretudo depois de ganhar algumas peças de ouro por ajudar a limpar a taverna. Além disso, devo mencionar também que um outro demôntrio havia chegado a Artagum recentemente, um Kakuro que fora um aluno meu enquanto ainda lecionava no templo de Demôntria e que coincidentemente fora preso conosco por estar no lugar errado, na hora errada. Reshiran é um dos alunos mais aplicados que já tive, e veio a Rarínu para documentar as práticas de magia rarinuana, traçar diferenças entre Rarínu e Tsukuma e tentar com isso ajudar a conciliar os povos de ambos os continentes. Como ele mesmo disse, veio até mim em busca de orientação. Parece que vou ter de cuidar de mais alguém além de Laverne…

Em tempo: durante a manhã, levei-a para conhecer um pouco da cidade. Mais perguntas e um vestido novo comprado com as moedas que ganhou. Visitamos a praça dos templos e me distraí por um momento enquanto procurava saber de um incidente que ocorrera no templo da deusa Angélia, onde também estava o meu ex-aluno Reshiran. Quando notei Laverne, estava ela na companhia deEitran, o halfling clérigo da deusa Liebin, dando-lhe alguns doces de procedência no mínimo duvidosa. Como se já não estivesse acontecendo coisas demais ao mesmo tempo,um elfo, que também estava presente nas celas por causa do incidente da morte de Sapiel, me abordou e me disse algo sobre estar na hora de “ensinar a menina certas coisas”. Não tive sequer tempo de reagir quando percebi Laverne voltando até mim comendo os tais doces e me fazendo perguntas estranhas. Desconforto é um eufemismo gigantesco para o que eu estava sentindo. E ainda nem sequer fomos à guilda para saber o que a senhorita Raya queria em troca de nossa soltura.

View

I'm sorry, but we no longer support this web browser. Please upgrade your browser or install Chrome or Firefox to enjoy the full functionality of this site.