Kiratsu

Kiratsu - Episódio 3 Resolvendo Problemas (parte 2)

"Meus pés doem de tanto batê-los no chão"

Por Frida Lizz’Astarth

31 de Decetério, 3360º A.D. (27 de Decetério, 420 D.B.). Dia do Acaso.

Finalmente uma pausa para atualizar este diário. Há exatos três dias partimos em viagem rumo ao Deserto Movediço, mais precisamente à cidade-estado de Clepsidra. A pessoa a quem deveríamos escoltar finalmente se apresentou naquele dia. Uma angélica de penas longas vermelho-fogo na cabeça, asas brancas do lado de dentro e negras do lado de fora e modos um tanto… extrovertidos. Parecia conhecer o braço-direito da líder da guilda, o “meio-demôntrio” Lizzandro, bem o suficiente para demonstrar tão publicamente o quanto não o aprecia. Seu nome é pronunciado como “Ichta”, mas certamente a escrita deve ser diferente. De qualquer forma, partimos sem utilizar os cavalos que nos foram disponibilizados, pois seria certo que nossa dívida aumentaria caso algo acontecesse aos animais. Além disso, nossa anfitriã não parecia ter tanta pressa em chegar ao seu destino. Por isso, a senhora “Ichta” não fez questão de que nosso pequeno grupo parasse hoje pela manhã para ajudar uma senhora idosa a recuperar sua… panela. Achei louvável a boa vontade dos meus novos conhecidos, mas não achei necessário tomar parte nisso. Então, enquanto eles ajudavam a velha senhora, aproveitei para continuar ensinando a pequena Laverne a ler e escrever. No fim das contas, pelo que soube depois, a pessoa a quem a senhora emprestou seus utensílios havia morrido de uma forma incomum. Foi bastante prudente da parte do grupo não se aprofundar neste mistério. Afinal, estávamos em uma missão e a julgar pela última experiência que tivemos envolvendo a morte de alguém, isso nos levaria a ainda mais problemas.

33 de Decetério, 3360º A.D. (29 de Decetério, 420 D.B.). Dia da Lua.

Meus pés dóem de tanto batê-los no chão. Encontramos uma caravana de jokers no fim do dia, quando estávamos prestes a parar para acampar. Essa seria uma boa oportunidade para conhecer nossos primos distantes e talvez reformular uma série de preconceitos que carregamos através de milênios de lendas e histórias, algo que até mesmo Reshiran havia concordado. Seria mas não foi, porque acabei sendo atrapalhada por um elfo inconveniente…

Convém ressaltar a atitude da senhora “Ichta”. Não me parecia que ela precisava realmente de proteção. Ela parecia saber muito bem o que estava fazendo, e liderava nosso grupo como se fosse ela mesma quem nos tivesse chamado para a missão. Portanto, não me surpreendeu que fosse ela a primeira a falar com os jokers da caravana e em seu próprio idioma – que guardava uma vaga semelhança com o nosso tsukumês, confirmando nossas origens em comum. Fomos bem recebidos por eles, e já no início da noite uma espécie de festa ou celebração começava a se formar. Cautelosamente, permaneci apenas observando o ambiente e as pessoas, prudentemente mantendo Laverne perto de mim enquanto observava os ritos e significados daquele evento. Para minha agradável surpresa, os jokers pareciam seguir os mesmos ideais de igualdade que nós demôntrios tanto cultivamos ao longo dos milênios. Um outro conceito religioso fascinante que acabei por descobrir é que eles acreditam que as estrelas são seus ancestrais observando-os dos céus. Observei ainda pela primeira vez suas “casarroças”, casas montadas sobre rodas e puxadas por animais de tração, o que também confirma a natureza nômade dessa família.

Estava observando cuidadosamente todos esses detalhes em meio à festa que ocorria quando o elfo Furion veio até mim para tentar me convencer a se juntar à dança. Como eu havia recusado, ele voltou-se para Laverne, mas eu também rechacei mais essa tentativa. E então uma criança veio ao encontro da menina, aparentemente para chamá-la para as brincadeiras do evento. Esse momento de distração foi o suficiente para sentir uma mão me puxar pela cintura e me levar para a roda ao redor da fogueira. Imediatamente a perdi de vista, apenas para me deparar novamente com o rosto daquele elfo intrometido sorrindo e me desafiando a dançar com ele. Olhando para todos os lados enquanto procurava Laverne, vi que todos estavam aproveitando a festa, cada um a seu modo – até mesmo a senhora “Ichta” estava bebendo vinho e conversando animadamente com os jokers, enquanto Reshiran, normalmente tão soturno e quieto, exibia orgulhosamente suas enormes asas (provocando interjeições de espanto e admiração em algumas fêmeas). Somente quando a avistei brincando com as outras crianças e se divertindo foi que finalmente atendi aos pedidos do elfo. Não é segredo que não sei dançar absolutamente nada (em parte porque ter cascos em vez de pés torna a tarefa ainda mais difícil…) e tentei me aproveitar desse fato para puni-lo com algumas pisadas “semi-involuntárias” em seus pés. Para meu embaraço, ele não desistiu e passou até a se divertir com esse novo jogo. De alguma forma acabei por me empolgar demais com a brincadeira (que eu mesma confesso ter sido um tanto ridícula…) e é exatamente por isso que meus pés estão doendo até agora.

35 de Decetério, 3360º A.D. (31 de Decetério, 420 D.B.). Dia do Tempo

Certamente hoje foi o dia mais movimentado de todos dessa demanda até agora. O ar quente vindo do deserto nos recebeu assim que avistamos as primeiras dunas ontem, anunciando o clima hostil que teríamos de enfrentar para chegar à cidade de Clepsidra. A senhora “Ichta”, junto com Reshiran, sobrevoaram as areias por algum tempo até encontrarem uma tribo de nativos, os quais após rápida negociação concordaram em servir-nos como guias. No entanto, a marcha me pareceu mais difícil devido à temperatura escaldante. Sofrendo com o terrível calor e tendo o que pareciam ser alucinações provocadas pela insolação, tentei arrefecer minha cabeça utilizando um pequeno truque para criar água sobre mim mesma. A ideia se provou totalmente contraproducente, pois além de não surtir o efeito desejado, a própria água passou a se aquecer, piorando ainda mais minha sensação de calor. Felizmente, Laverne veio em minha ajuda e aparentemente conjurou uma magia para me proteger das temperaturas altas do deserto.

Viajamos um pouco mais durante a noite e na tarde do dia seguinte já avistamos a grande cidade-estado. Suas construções mais simples são feitas de argila, amontoadas e com espaços mínimos entre si, formando vielas muito estreitas. À medida que adentrávamos mais e mais pela cidade, prédios e construções mais sofisticadas começavam a aparecer. Casas revestidas de cerâmica aqui e ali ganhavam destaque. Foi num desses prédios que a senhora “Ichta” entrou para tratar dos seus assuntos em Clepsidra. Sairíamos em pouco tempo para a viagem de volta, mas devido a contratempos que serão descritos adiante, acabamos por ficar e passar a noite na cidade. A princípio, ela nos pediu para sairmos e explorarmos as ruas enquanto resolvia seus negócios, e que voltássemos em cerca de duas horas àquele mesmo prédio. E então, nos separamos em pequenos grupos.

Saí com Laverne e Reshiran para abastecermos nossos cantis e rações de viagem. Felizmente, meu dedicado ex-aluno havia trazido as moedas necessárias para trocar pelos mantimentos e, como esperado, a menina trocou suas moedas por tantos doces quanto pudesse pegar. É impressionante como aceitam esses pedaços de metal em qualquer lugar e trocam-nos por qualquer coisa. Foge à minha compreensão o motivo de fundamentar um sistema econômico de troca de valores em algo que não tem verdadeiro valor, mas estando aqui tudo o que posso fazer é tentar entender e aceitar esse sistema. Após as compras, resolvemos tomar o caminho de volta para o prédio quando uma senhora de idade passou por nós queixando-se de que suas galinhas vinham sendo roubadas por algum tipo de criatura estranha. Dizia ser uma espécie de “lobo bípede”, que só roubava uma galinha de cada vez. Pelas conjeturas apresentadas por Reshiran, parecia que se tratava ou de um lobo atroz realmente bípede ou de um licantropo pequeno. Intrigante, mas não a ponto de me fazer esquecer que tínhamos de nos encontrar como a senhora “Ichta” na frente do prédio. No entanto, por insistência da pequena Laverne e até mesmo pelo interesse de Reshiran, acabei concordando com ambos em ajudar a senhora idosa.

Surpreendentemente, percebi que Laverne sabia seguir rastros bastante bem para uma criança. Uma boa caminhada seguindo as pistas nos levou a um pequeno grupo de crianças de rua, as quais usavam botas com solas de patas de lobo para enganar a senhora idosa. Com essa prova, ficou claro que eram eles os culpados pelos roubos. No entanto, a pequena quadrilha mirim o fazia por não ter o que comer, e achamos por bem convencer a senhora a cuidar das crianças e lhes ensinar algum ofício (como cuidar de galinhas, por exemplo) em troca de ajudá-la com as tarefas dela. Com esse pequeno caso resolvido, a mesma senhora nos ofereceu cinquenta “olhos de ouro” como recompensa, dos quais dei dez a Laverne – ao menos ela poderá trocar por mais doces.

Quando finalmente retomamos o caminho até o prédio, vimos bastante movimentação nas ruas, as pessoas entrando em suas casas e fechando portas e janelas. Certamente algo estava para acontecer, mas mesmo assim fomos pegos de surpresa: uma tempestade de areia irrompeu pelas ruas da cidade antes que pudéssemos alcançar a segurança do prédio. Com o manto que me foi dado pelos nômades do deserto no dia anterior, protegi a mim e a Laverne da areia que voava com os ventos intensos. Reshiran aparentemente tentou fazer o mesmo abrindo suas asas mas acabou sendo arrastado pela tempestade por vários metros. Quando finalmente percebi que a tempestade havia passado, já estavam lá Furion e Loisandra a ajudar meu desafortunado e escoriado ex-aluno. A senhora “Ichta” então decidiu que deveríamos ficar e descansar para Reshiran tratar de suas feridas antes de partir. Alugamos quartos numa estalagem próxima, e dividi um deles com Laverne e Reshiran.

Laverne inegavelmente tem grande potencial, e não falo de seus poderes arcanos. A menina havia percebido minhas dificuldades com o sistema de valores local e achou por bem tentar me ensinar como funcionava. Obviamente, sua curiosidade falou mais alto e não demorou a vir a costumeira enxurrada de perguntas sobre o nosso sistema de valores. E mais uma vez, por mais que me esforçasse, aparentemente não consegui fazer com que ela entendesse sequer o básico da economia tsukumesa. As diferenças culturais realmente têm bastante peso no aprendizado, mas ainda assim farei com que ela aprenda ao menos a ler, escrever e contar.

Descemos para o jantar. Enquanto alguns dos outros foram tirar a poeira do dia (que nunca foi tão literal quanto hoje) com um banho, Laverne e eu terminávamos nossa refeição ao som e à voz de músicas tocadas por uma mulher encapuzada. Mais uma vez a menina mostrou seu lado arredio quando tentei levá-la para dar-lhe banho. Tentei arrastá-la para as banheiras, mas sua… veemente recusa… me fez desistir e então fui sozinha me banhar. Assim que terminei o asseio, eis que a vejo me pedindo para tomar banho, pois segundo ela, o elfo disse-lhe que “poderia fazer bolhinhas na água”. Pela chave de Demôntria, isso só pode ser um teste dela própria… Obviamente, tive de aproveitar a oportunidade. Enquanto cuidava da menina, a mesma mulher (na verdade, uma elfa) que cantava no jantar e Karen, uma das moças do nosso grupo, também estavam nas tinas. Conversamos sobre histórias, canções e canto, o que instigou Laverne a perguntar se eu conhecia alguma música. Relutantemente, cantei alguns versos de uma antiga canção de ninar que me dava sérios calafrios quando criança. Mas por algum motivo, sinto que não era por causa da letra que as senhoritas ali presentes pareciam desconfortáveis…

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