Kiratsu

Kiratsu - Episódio 4 A volta de Clepsidra

"Ter incentivado Lala a desenhar foi uma ótima e péssima ideia..."

3 de Dartério, 3360º A.D. (39 de Decetério, 420 D.B.). Dia da Lua.

O que sinto dessa semana-e-meia de viagem, agora que estou de volta à sede da guilda, é um misto de desconforto, culpa e em certa dose, medo. Nunca pensei que a crueldade das pessoas pudesse ser tão facilmente despertada – e que eu tomaria parte nisso.

Partimos da cidade de Clepsidra pela manhã. A despeito de minhas recomendações para viajarmos durante à noite a fim de evitar o calor extremo do deserto, senhorita Ichta, nossa anfitriã, quis que partíssemos o quanto antes. Embora contrariada, tive de ceder ao seu argumento sobre evitar mais tempestades de areia e pessoas se ferindo. A viagem através do deserto na verdade se mostrou perfeitamente tranquila mas no segundo dia de viagem, assim que acampamos fora das areias, fomos cercados por um grupo de bandidos humanos. A forma com que lidamos com a ameaça – sim, nossos. Pois não me isentarei de ter tomado partido nesses atos no mínimo questionáveis – fora drástica e obviamente teve consequências mentais bastante negativas para a pobre Laverne, já traumatizada com suas próprias memórias.

Eram cerca de meia dúzia deles. Tentaram nos emboscar, mas os percebemos antes disso. A falta de disciplina em combate dos bandidos era perceptível. Laverne e Reshiran conseguiram neutralizar dois deles de imediato, prendendo-os com magia. Ao nosso redor, vi nosso grupo lutando contra os demais e temendo que as magias que prendiam os bandidos não fossem o suficiente, conjurei uma esfera de chamas para detê-los em definitivo (a quem eu quero enganar, foi para matá-los de fato…) e foi o que aconteceu com um deles. O que se seguiu depois disso passou de legítima defesa a carnificina: vi Loisandra decapitando um com sua espada, a senhorita Ichta explodindo a cabeça de outro com sua estranha arma trovejante e até Reshiran fazer um bandido em fuga queimar até a morte. O último deles foi caçado como um animal até a própria senhorita Ichta acertá-lo com mais um disparo. Relembrar tudo isso torna-se mais e mais doloroso a cada vez que o faço, e até mesmo agora enquanto escrevo me flagro tentando imaginar como seria de outra forma. Culpa realmente é um dos piores sentimentos…

Minha preocupação maior, no entanto, era e ainda é Laverne. A menina estava obviamente em choque com aquela sucessão de atrocidades praticadas por nós. Esteve quieta durante todo o restante da viagem, e mesmo quando paramos para acampar às margens do Lago Cristal ou ao encontrarmos uma caravana de comerciantes, ela se manteve calada. Aparentemente não parecia ter dormido bem. Mais do que suas perguntas constantes, seu silêncio era perturbador. Quando finalmente chegamos de volta à guilda hoje (ou talvez ontem, dado que essas linhas estão sendo escritas durante a madrugada), na cidade de Artagum, Laverne parecia realmente abatida. No entanto, com uma refeição decente e uma cama confortável, facilmente caímos no sono; todavia este fora interrompido por um pesadelo de Laverne. Eu temia que isso fosse acontecer. Como havia intuído, suas memórias vieram à tona com o novo trauma, fato constatado enquanto conversávamos há pouco. Como ela havia pedido, dei-lhe um dos meus últimos pergaminhos em branco e um pedaço de carvão para que desenhasse durante nosso diálogo. Lala falou-me sobre seu sonho ruim, o medo de usar seus poderes inatos e machucar pessoas. Um fardo grande demais para uma criança como ela. Além de todas essas preocupações, Lala me fez pensar a respeito da índole do grupo e da minha própria. Não foi a primeira vez que precisei matar alguém para me defender, mas é certamente a primeira que me fez sentir culpada. Certamente esse é um assunto complicado demais para lidar, principalmente quando temo pela segurança de alguém tão vulnerável mentalmente e ao mesmo tempo com tanto potencial destrutivo bruto como Lala. Rogo a Demôntria que me dê a sabedoria e sobretudo a coragem necessária para salvá-la de si mesma… e possivelmente salvar também a mim.

Nota adicional: Ter incentivado Lala a expressar-se por meio de desenhos foi uma ótima e uma péssima ideia…

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